terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sobre o porquê de ser

O livro “Bandidos” de Eric Hobsbawm nos remete a um tema polêmico e contemporâneo. O livro aborda histórias, sempre no universo camponês e em tempos já remotos, de homens que viviam completamente fora do que as autoridades de suas respectivas regiões consideravam legal. Porém, há nesses indivíduos um aspecto peculiar: Eram homens profundamente admirados onde viviam como espécies de Robin Hoods parciais, e despindo-nos de maiores romantismos, nunca integrais. Eram homens que enfrentavam autoridades locais de maneira surpreendentemente corajosa, aderindo ao banditismo, a mais completa marginalidade, em detrimento da submissão e em busca de liberdade. O autor os denomina como bandidos sociais.

Apesar de serem minoria, esses bandidos se tornaram símbolos de resistência contra toda a opressão imposta aos camponeses pobres por parte de seus governantes. Tornaram-se verdadeiros heróis, paladinos da justiça em tempos tão difíceis, não só por serem símbolos, mas por ajudarem, com o resultado de seus crimes, diretamente nas questões materiais dos lugares a que pertenciam. A prova dessa admiração está nas freqüentes homenagens contidas principalmente na cultura popular.

Acredito que a analogia com os “nossos” bandidos é valida. Hobsbawm argumenta que a maioria devastadora desses homens entrava no banditismo por falta de trabalho, ou por alguma perseguição de que eram vítimas (perseguições promovidas por autoridades, geralmente por problemas com terra). E isso era muito comum em vilarejos isolados e pobres. O banditismo se tornava opção óbvia para possuir bens, respeito, poder e principalmente, liberdade, que se traduzia em ser senhor da própria vida. E essas motivações não parecem tão distantes das atuais.

Podemos afirmar, tranqüilamente, que o tempo em que vivemos como todos os outros tempos, de maneira alguma podem ser chamados de justo, de honesto. O Brasil é um dos países campeões em má distribuição de renda, sofrendo a conseqüência natural desse processo: uma organização social extremamente excludente. Exclui crianças das escolas de qualidade, de famílias com um mínimo de estrutura financeira e psicológica, de uma oportunidade de um emprego digno e de uma vida tranqüila, exclui a oportunidade de escolher seu próprio caminho. O sistema exclui do que o próprio sistema exige. E como já sabemos, assim como entre os camponeses de Hobsbawm, a rebeldia está entre nós.

Gostaria de ser menos opinativo, mas não me contive. Mesmo assim colocarei o debate, que é bastante complexo. Vocês acham que os bandidos do nosso tempo são vítimas sociais, ou realmente merecem ser chamados de todos os termos pejorativos que já conhecemos? Existem muitas opiniões e espero debater com todas. Para tentar ser menos tendencioso, quero lembrar da válida citação de Jean Paul Sartre, um grande filósofo francês, que sempre ganha vida na minha turma através do professor Maurício: “Não importa o que fizeram com você, mas o que você faz com o que fizeram com você”. Aguardo ansiosamente por respostas.

Diego de Carvalho Parente

4 Comentários:

JRP disse...

Olhando de uma ótica "comum" e impregnada de preconceitos, a reprodução de representações pejorativas de uma dada realidade social tende a se propagar diariamente, enquanto a questão é bem mais complexa...

Unknown disse...

Cara. O lampião e seus comparsas seriam um bom exemplo desses "bandidos", que na verdade por estarem em situação periférica na sociedade, tentam lutar, cada um com seu jeito, contra essas desigualdades.

Breno Cavalcante disse...

A pergunta é, quem são os "bandidos'' do nosso tempo? Eles são os mesmos de antes, ou surgiram novas maneiras de o serem?

Jairo Mouzzez disse...

Os "bandidos" sempre buscam, desde os primórdios, a obtenção do status e dos bens que, por questões sociais, lhe foram privados. Encontram no banditismo um escape que, mesmo repleto dos riscos, possa lhe proporcionar algo que possa suprir a sua necessidade. Se um filhinho de papai pode usar um celular, tenis, ou mesmo dar uma FUNGADA NUMA COCA , o bandido também se acha no direito de ter tais oportunidades. E como não tem trabalho, já que todas as condições sociais lhe impuseram a falta de escola, saúde e educação adequados, recorrem à criminalidade pra suprir as suas necessidades que, embora vivam em realidades diferentes, são as mesmas.

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